{"id":4182,"date":"2020-12-03T11:08:05","date_gmt":"2020-12-03T10:08:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.epefrance.org\/?p=4182"},"modified":"2020-12-03T15:17:53","modified_gmt":"2020-12-03T14:17:53","slug":"catedra-eduardo-lourenco-camoes-i-p-da-universidade-aix-marseille","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.epefrance.org\/fr\/homenagem\/catedra-eduardo-lourenco-camoes-i-p-da-universidade-aix-marseille\/","title":{"rendered":"Homenagem da C\u00e1tedra Eduardo Louren\u00e7o (Cam\u00f5es, I.P.) Universidade Aix-Marseille"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 j\u00e1 com saudade, para lembrar o t\u00edtulo do seu ensaio mais c\u00e9lebre (<em>O labirinto da Saudade<\/em>) que recordamos o Professor Eduardo Louren\u00e7o de Faria falecido a 1 de Dezembro de 2020.<br \/>\nGrande fil\u00f3sofo da cultura europeia, ele tamb\u00e9m conseguiu pensar a constru\u00e7\u00e3o da identidade portuguesa contempor\u00e2nea.<br \/>\nA carreira extraordin\u00e1ria deste Universit\u00e1rio deve a sua celebridade a um racioc\u00ednio independente e sem concess\u00f5es, a uma lucidez intelectual fora do comum, mas tamb\u00e9m \u00e0 sua profunda humanidade e sentido do humor que todos os seus leitores e amigos consideram como essencial na divulga\u00e7\u00e3o do saber.\u00a0 Foi um livre pensador que sempre recusou os entraves ideol\u00f3gicos que observou e descosturou durante a sua longa vida de escritor.<br \/>\nNasceu em 1923 na aldeia de S\u00e3o Pedro do Rio Seco (Beira Baixa), numa modesta e solid\u00e1ria fam\u00edlia rural, origem que alimentou n\u00e3o somente o seu imagin\u00e1rio ao longo da vida mais tamb\u00e9m a sua simplicidade visceral.<br \/>\nNa Universidade de Coimbra, estudou Hist\u00f3ria e Filosofia. Licenciado em 1946, pode lecionar alguns anos na dita universidade, antes que o totalitarismo da \u00e9poca Salazarista o levasse a decidir de se tornar cidad\u00e3o do Mundo. Come\u00e7ou a sua carreira lecionando a l\u00edngua e cultura portuguesas na Alemanha (Universidades de Hamburgo e Heidelberg) antes de viajar para o Brasil (Universidade da Bahia). A partir de 1959, sempre como leitor, ou professor convidado, instalou-se em Fran\u00e7a, a sua segunda p\u00e1tria cultural. \u00a0Trabalhou nas universidades de Grenoble e Montpellier, antes de se fixar definitivamente em Nice onde decorreu o essencial da sua carreira acad\u00e9mica (1960-1989). A sua liga\u00e7\u00e3o com a Proven\u00e7a foi muito mais profunda que um simples v\u00ednculo acad\u00e9mico. Ele contava que o Mistral era o irm\u00e3o do vento da sua inf\u00e2ncia.<br \/>\nGrande teorista do pensamento europeu ao qual consagrou v\u00e1rias obras, publicou em 1949 o primeiro volume de um ensaio intitulado <em>Heterodoxia<\/em>, o qual afirmava j\u00e1 a sua independ\u00eancia intelectual. Defendeu desde ent\u00e3o a ideia de uma Europa fundada sobre a reivindica\u00e7\u00e3o de seu patrim\u00f3nio cl\u00e1ssico e o universalismo das suas ideias democr\u00e1ticas. Foi tamb\u00e9m um amador de arte e um leitor apaixonado que dedicou uma parte dos seus \u00faltimos anos a entender a liga\u00e7\u00e3o entre a Europa e a cultura mu\u00e7ulmana. As literaturas cl\u00e1ssicas e contempor\u00e2neas, entre Cam\u00f5es, Antero e Pessoa, foram, como ele o escreveu muitas vezes, a sua vida secreta, sua verdadeira vida, o fio condutor do seu pensamento.<br \/>\nA modesta carreira acad\u00e9mica que a Universidade francesa lhe permitiu concretizar, foi inversamente proporcional ao extraordin\u00e1rio reconhecimento internacional pela sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e filos\u00f3fica, ao longo dos \u00faltimos trinta anos. Com humor, citava a sua proverbial incapacidade para preparar qualquer tipo de candidatura a uma promo\u00e7\u00e3o, um concurso, um pr\u00e9mio. Os seus leitores encarregaram-se da tarefa. Perdemos hoje a conta dos pr\u00e9mios nacionais e internacionais que tem vindo a receber ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Recebeu-os todos com a mesma humildade, sempre reconhecido pela honra que lhe era concedida. Citaremos apenas o que mais o marcou: o pr\u00e9mio de ensaio europeu Charles Veillon em 1988. O mundo acad\u00e9mico seguiu neste reconhecimento pelo conjunto da sua obra: foi doutor <em>Honoris Causa<\/em> pelas Universidades de Coimbra, Lisboa, Rio de Janeiro e Bolonha. As Universidades de Bolonha e Aix-Marseille deram o seu nome \u00e0s suas c\u00e1tedras de Estudos portugueses (Cam\u00f5es IP). Tamb\u00e9m os pol\u00edticos acabaram por ver nele um mestre. Em Fran\u00e7a, foi nomeado Cavaleiro das Artes e das Letras (2000) e oficial da Legi\u00e3o de Honra (2002). Em Portugal foi Conselheiro de Estado.<br \/>\nSeu grande orgulho foi tamb\u00e9m, nos \u00faltimos anos, a sua nomea\u00e7\u00e3o como administrador n\u00e3o executivo da Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian em Lisboa. A Funda\u00e7\u00e3o disponibilizou para ele um escrit\u00f3rio onde acolheu artistas, jornalistas, universit\u00e1rios e estudantes do mundo inteiro. Recebia-os todos igualmente, com o mesmo generoso respeito.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do celeb\u00e9rrimo intelectual, o pedagogo nunca se afastava. Passou os seus anos de aposentadoria a transmitir a sua cultura, a sua leitura da Hist\u00f3ria cultural e de seu impacto sobre o mundo contempor\u00e2neo. At\u00e9 aos 96 anos, redigiu mais de 800 artigos e cr\u00f3nicas para a imprensa, pref\u00e1cios de obras de jovens pesquisadores\u2026 Com o mesmo dinamismo apresentou in\u00fameras confer\u00eancias e protagonizou reportagens e debates. Os jornalistas valorizaram esta figura luminosa cujo olhar l\u00facido e humor\u00edstico sobre o mundo contrastava maravilhosamente com a eleg\u00e2ncia cl\u00e1ssica do seu terno. A sua \u00faltima entrevista, aos 96 anos, sobre as rela\u00e7\u00f5es entre a Fran\u00e7a e o Isl\u00e3o, e sobre o destino da na\u00e7\u00e3o francesa, representa um modelo de antologia.<br \/>\nA Universidade de Aix-Marseille acolheu o Professor Eduardo Louren\u00e7o em 2018 para a inaugura\u00e7\u00e3o da C\u00e1tedra que foi batizada com o seu nome. Esta c\u00e1tedra concretizou 50 anos de colabora\u00e7\u00e3o entre o Instituto Cam\u00f5es IP e a nossa Universidade.\u00a0 Envi\u00e1mos ao Professor Eduardo Louren\u00e7o um convite para vir presidir a cerim\u00f3nia de inaugura\u00e7\u00e3o. Mais por cortesia do que por esperan\u00e7a que pudesse vir, dada a sua notoriedade e as prestigiosas solicita\u00e7\u00f5es internacionais que recebia. Mas ele surpreendeu-nos. Aceitou viajar e vir compartilhar esse momento connosco.\u00a0 Conscientes dos seus 95 anos, esper\u00e1vamos um simp\u00e1tico discurso inaugural. Mas ele ofertou-nos uma confer\u00eancia magistral sobre a import\u00e2ncia da cultura francesa na sua forma\u00e7\u00e3o e no seu pensamento. O Embaixador, o Presidente do Instituto Cam\u00f5es, o C\u00f4nsul Geral, os deputados de Portugal, assim como os estudantes e os pesquisadores das 17 universidades francesas e lus\u00f3fonas presentes, todos tivemos consci\u00eancia de estar a viver um momento absolutamente excecional. A emo\u00e7\u00e3o era palp\u00e1vel em muitos dos presentes.<br \/>\nPor sua vez, o Professor Eduardo Louren\u00e7o comoveu-se mais particularmente com as jovens gera\u00e7\u00f5es presentes, em particular com as leituras p\u00fablicas de seus textos, pelos estudantes, em v\u00e1rias l\u00ednguas. At\u00e9 aprovou a apresenta\u00e7\u00e3o pouco acad\u00e9mica da sua biografia, onde pudemos descobri-lo em fotografias da sua \u00e9poca professoral, dan\u00e7ando o Flamenco com os seus estudantes de Nice.<\/p>\n<p>Eduardo Louren\u00e7o deixa um legado monumental, mais de quarenta obras, para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es de Europeus e Lus\u00f3fonos.<br \/>\nAt\u00e9 a partida \u00e9 simb\u00f3lica de sua vida de Pensador livre. Despediu-se de n\u00f3s a 1 de Dezembro, festa da Restaura\u00e7\u00e3o e da independ\u00eancia de Portugal.<br \/>\nComo escreveu o mestre Louren\u00e7o: <em>\u00c9 a minha contribui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica para uma comunidade que um dia venha a ser mais do que um nome<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Cam\u00f5es IP\/Universidade de Aix-Marseille<br \/>\n<\/strong><strong>C\u00e1tedra Eduardo Louren\u00e7o<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 j\u00e1 com saudade, para lembrar o t\u00edtulo do seu ensaio mais c\u00e9lebre (O labirinto da Saudade) que recordamos o Professor Eduardo Louren\u00e7o de Faria falecido a 1 de Dezembro de 2020. Grande fil\u00f3sofo da cultura europeia, ele tamb\u00e9m conseguiu pensar a constru\u00e7\u00e3o da identidade portuguesa contempor\u00e2nea. 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